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Uma vitória no Congresso da FNP: cresce a participação das petroleiras

No Congresso da FNP deste ano, estiveram presentes diretoras de base e liberadas, petroleiras da ativa, aposentadas e pensionistas. Houve um aumento considerável no número de mulheres presentes, fomos 25% do congresso!

Por Por Fabiola Calefi, diretora do Sindipetro Litoral | 22/08/2017
Uma vitória no Congresso da FNP: cresce a participação das petroleiras

No último fim de semana, petroleiras e petroleiros do Sindipetro-LP participaram do 11° Congresso Nacional da FNP - federação que se propõe a ser uma alternativa sindical combativa da categoria. Foi um congresso muito bom e produtivo. Debates, palestras e discussões sobre a situação política do país e os ataques do governo Temer, muita polêmica e opiniões diversas sobre qual a melhor forma de superar as dificuldades para organizar a luta e resistência da classe trabalhadora.

Parte importante das resoluções votadas, definimos também as tarefas da categoria para o período de negociação do ACT e da defesa da Petrobrás. Uma pauta de lutas, conectada à conjuntura e ao sentimento da base, foi aprovada. Um passo importante para garantir que as nossas reivindicações tenham a capacidade de tocar mentes e corações e mover os petroleiros rumo à necessária greve nacional e unificada dos petroleiros.

Além desses temas importantes, outras discussões fazem parte do congresso, como por exemplo, o combate às opressões. A opressão contra mulheres, negras, negros e LGBTs é utilizada pelos patrões para aumentar o nível de exploração do conjunto da classe trabalhadora. Resta a esses setores os empregos mais precarizados, salários rebaixados e menos direitos. Estudos recentes apontam que essa discriminação faz com que as mulheres recebam até 30% menos que os homens.

A opressão é um poderoso artifício do capitalismo que impõe às mulheres a dupla e, não raro, a tripla jornada de trabalho. As estimativas dão conta de que as trabalhadoras têm uma jornada em média 7 horas superior por semana quando comparada à praticada pelos homens. Com a responsabilidade pelas tarefas domésticas, criação das crianças e cuidados com idosos (serviços não remunerados que deveriam ser garantidos pelo Estado por meio de creches, escolas e hospitais públicos gratuitos e de qualidade), as mulheres são submetidas a um nível brutal de exploração. Quando se trata de mulheres negras, esses números são ainda mais assustadores.

Mesmo que os companheiros de luta entendam e apoiem a luta contra a violência à mulher, é necessário ir além. Os dirigentes da categoria petroleira precisam ser os primeiros na defesa contra a lgbtofobia, racismo e machismo. Precisam ser vigilantes com o machismo sutil, expresso nas piadas e brincadeiras que desmoralizam, infantilizam e desmobilizam as companheiras. Assim como a lgbtfobia e o racismo, diminuem a participação de parte importante da categoria.

No Congresso da FNP deste ano, estiveram presentes diretoras de base e liberadas, petroleiras da ativa, aposentadas e pensionistas. Houve um aumento considerável no número de mulheres presentes, fomos 25% do congresso! Mas a vitória não foi apenas numérica: fizemos intervenções, nos posicionamos, ousamos ocupar um espaço reservado historicamente apenas aos homens. É estimulante! Também tivemos a presença de mulheres de outras categorias que reforçaram o debate sobre opressões como as metalúrgicas de Minas Gerais. Contamos com a participação especial de Ana Cruz, escritora, negra e militante, que apresentou e divulgou seu trabalho através do livro “Eu não quero flores de plástico”. Uma obra incrível que retrata o machismo, a luta contra o racismo e parte importante da vida de Ana de forma poética, porém contundente.

Claro, nem tudo são flores. Uma companheira nova na militância sindical, na plenária final, fez um relato emocionado das pressões e dificuldades que enfrentou para estar ali e poder ser ouvida. Com muita clareza, descreveu o quanto é difícil para as mulheres trabalhadoras tomarem pra si o direito de se posicionar, opinar, contribuir.

Por mais que as intenções sejam boas, estamos falhando no apoio às companheiras. Cartas com boas intenções são insuficientes, reservar uma cadeira simbólica às mulheres na mesa dos debates é insuficiente, assim como é insuficiente nos reservar o lugar de fala apenas quando o tema é justamente sobre mulheres. É um passo importante, mas queremos que as mulheres sejam ouvidas também para falar sobre a venda de ativos da Petrobrás, sobre o desmonte de direitos aplicado pelo governo Temer, enfim, nossa capacidade política para falar sobre qualquer tema é enorme. Mas para isso é preciso respeitar as companheiras e adotar medidas concretas que nos ajudem a furar o bloqueio que o machismo nos impõe.

Nossa companheira e assessoria jurídica da FNP, Raquel Sousa, é um belo exemplo do que devemos ter como horizonte. Uma mulher de luta, reconhecida e valorizada pelo seu combate ao machismo, mas também reconhecida por sua luta tenaz contra a venda de ativos através das ações na Justiça que vêm denunciando o crime de lesa pátria contra a maior empresa do país. A palestra ministrada por ela foi um dos pontos altos do Congresso: incisiva, politizada, nos encheu de energia para derrotar o projeto privatizante da dupla Parente/Temer. Que mais mulheres sejam como Raquel, que mais mulheres possam ser ouvidas e respeitadas. O movimento sindical só tem a ganhar com isso.

Por isso, algumas propostas para combater as opressões e fortalecer as mulheres foram elaboradas por nós, mulheres petroleiras. Dentre elas, que ao menos 10% da direção da FNP, seus sindicatos e instâncias seja de mulheres; criação da Secretaria de Opressões da FNP; promover o 1º Encontro Nacional das Mulheres Petroleiras da FNP, uma demanda urgente e já reivindicada anos atrás; e promover cursos sobre combate ao machismo nos sindicatos para diretores e diretoras. Esta última proposta é muito importante, pois terá papel fundamental para que essas resoluções não sejam aplicadas com formalidade. As mulheres terão papel de vanguarda na concretização dessas medidas, mas sem o convencimento real dos companheiros o caminho será muito mais difícil. É preciso que essas medidas, importantíssimas, sejam acompanhadas de um processo vivo de incorporação de mais mulheres ao movimento sindical.

Ao longo do congresso e, principalmente, no debate de opressões, pudemos perceber que a luta contra a lgbtfobia, o racismo e o machismo, é urgente. Não é possível que aqueles que se propõe organizar a resistência continuem reproduzindo e errando. A luta contra as opressões une a categoria e se apresenta como um dos pilares da nossa força. Se queremos defender a Petrobrás e os nossos direitos, precisamos de uma greve nacional unificada poderosa. E para isso, é preciso incorporar os setores oprimidos nessa luta. E isso se faz combatendo em nossos próprios espaços a opressão que só beneficia o capital, pois nos divide e enfraquece.

Obrigada às companheiras que estiveram presentes e tornaram esse debate possível e presente neste congresso.

Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede!

Tags Mulheres participação da mulheres mulheres petroleiras mulheres na luta

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