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Qual é o temor dos gerentes da Petrobrás?

Presidente da Petrobrás, Pedro Parente, que está completando um ano à frente da empresa, se disse surpreendido com a paralisia da gerência da companhia

Por Por Cláudio da Costa Oliveira | 07/08/2017

Em jantar promovido pelo site Poder 360, realizado no último dia 17 de julho, em Brasília, com a presença de empresários e jornalistas, o presidente da Petrobrás, Pedro Parente, que está completando um ano à frente da empresa, se disse surpreendido com a paralisia da gerência da companhia que, segundo ele, não quer se comprometer com riscos de envolvimento na operação da estatal.

Parente afirmou “a media gerencia está paralisada, amedrontada” e considerou tratar-se de uma reação aos efeitos da operação Lava Jato, “porque eles respondem com o CPF”. 

Pedro Parente parece desconhecer, ou pelo menos finge desconhecer, que a reação do corpo gerencial da empresa busca proteger a companhia dos rumos que estão sendo dados à Petrobrás pela atual administração, com venda de ativos feitas açodadamente, ao arrepio da lei em negociatas diretas. Com uma política de preços que causou queda na receita da empresa de 12% em 2016 (em relação a 2015) com queda no lucro bruto de 9%, colocando as refinarias brasileiras na ociosidade e beneficiando concorrentes ( Shell e Ipiranga). Com a evidência da incompatibilidade de interesses entre os diretores, Pedro Parente, Ivan Monteiro e Nelson Silva, com o futuro da empresa.

É claro que nesta situação os gerentes tem de buscar proteger a si mesmos e à empresa, ainda mais quando assistem ao desfile de denúncias como as seguintes :

- Em maio/2017 a Federação Nacional dos Petroleiros –FNP fez denuncia na CVM contra Pedro Parente e Ivan Monteiro (diretor financeiro), por omitirem fatos sobre a venda dos campos de Tartaruga Verde e Baúna. A FNP pediu a cassação da função pública de Parente .

- Em junho/2017 a Federação Única dos Petroleiros – FUP fez uma representação junto ao Ministério Publico Federal, pedindo o afastamento de Pedro Parente, por ser sócio fundador da Prado Consultoria, grupo de gestão financeira empresarial, presidido por sua esposa. Esta participação é totalmente incompatível com a função de presidente da Petrobras.

- A Associação dos Engenheiros da Petrobrás – AEPET, na última semana emitiu uma “Carta aberta à sociedade brasileira sobre a desintegração da Petrobrás”. O documento que foi enviado a todos os órgãos da sociedade livre organizada, é um grito de advertência a tudo que vem acontecendo na Petrobrás com a atual administração. Entre muitos aspectos abordados, a AEPET afirma “A atual administração transformou lucros em prejuízos, com a desvalorização de seus ativos” e também “A Petrobrás não precisa vender ativos para reduzir seu nível de endividamento”

Mais relevante ainda é quando a carta aborda o conflito de interesses de Pedro Parente, Ivan Monteiro (diretor financeiro) e Nelson Silva (diretor de estratégias), que são originários de empresas que hoje estão comprando os ativos postos em “liquidação” pela atual administração. http://www.aepet.org.br/uploads/paginas/uploads/File/Carta%20%20Aberta_rev0.pdf

O site PetroNoticias, considerou as denuncias da AEPET de “estrema gravidade” e “passíveis de investigações mais profundas seja do Ministério Público Federal, seja da Polícia Federal”.

A PetroNotícias encaminhou o documento para a assessoria de imprensa da Petrobrás pedindo um posicionamento da empresa, mas ainda não obteve resposta. Evidentemente não vai haver resposta porque contra fatos não há argumentos.

Além das denúncias citadas acima, muitas outras já foram feitas como da Asmirg- Associação Brasileira de Revendedores de GLP, sobre a venda da Liquigás e da Febrageo-Federação Brasileira de Geólogos, sobre a venda de Carcará.

Ainda neste jantar Pedro Parente afirmou : “Como a estatal quase quebrou, hoje ao menos eles (os gerentes) vem que há um plano consistente de recuperação”.

Agora nós é que ficamos surpreendidos. Será que Parente pensa que com mentiras vai convencer alguém na empresa ? Os números auditados e publicados pela companhia são bem claros e estão disponíveis para quem quiser ver :

                             

Qualquer analista de balanços que ver estes números dirá que esta empresa não tem e nunca teve problemas financeiros. Quais dados levaram Pedro Parente a dizer que a empresa “quase quebrou” ?

Alguns alegam que o endividamento da Petrobras é muito alto. Mas uma empresa que tem uma geração operacional de caixa que corresponde a 25% de sua dívida liquida (US$ 97 bilhões) não tem nenhum problema na administração desta dívida. 
Para uma rápida comparação vamos dar uma olhada nos números da maior petroleira do mundo, a americana EXXON.

                      

Vejam que a Exxon, cujo receita é mais de duas vezes superior à da Petrobrás, tem uma geração operacional proporcionalmente muito inferior à da Petrobrás.

Por outro lado, a Exxon mantém saldos de caixa bem mais baixos e liquidez corrente muito menos confortável. Talvez fosse oportuno que os gerentes financeiros da Petrobrás fizessem um estágio na Exxon, para aprender a administrar melhor os recursos da empresa, ao invés de falar em necessidade de venda de ativos. Notem que basta diminuir um pouco o caixa para não ser necessário vender ativos .

Lembro a todos que a Exxon tem classificação de risco AAA (grau máximo) da Standart & Poor’s, enquanto a Petrobrás tem classificação BB, 12 níveis abaixo. Para melhor entender isto recomendamos que assistam o documentário “Trabalho Interno” (Inside job), que recebeu o Oscar em 2011. 

Quanto à afirmativa de que “há um plano consistente de recuperação”, o resultado da última pesquisa de ambiência, realizada em janeiro de 2017 mostrou o pensamento dos petroleiros :

- Percentual de respondentes de 64%, o menor na história das pesquisas de ambiência da Petrobrás.

- Pergunta : O plano de negócios e gestão está na direção certa? Resposta : só 37% concordam.

- Pergunta : Confia nas decisões tomadas pela Direção Superior diante dos desafios da companhia? Resposta: só 31% confiam.

Fica claro que Pedro Parente não está enganando ninguém na Petrobrás.

Parente ainda salientou que a administração trabalha pelo “fim da hegemonia do sindicato, que beneficiou os funcionários da empresa com aumentos salariais acima da inflação durante vários anos”

Ora, mesmo com a queda de 12% na receita em 2016, os gastos com pessoal da companhia representaram apenas 8% de suas vendas. Um percentual muito baixo, que poucas empresas logram obter.

Comparando , podemos dizer que o gasto anual com um aumento salarial de 10% na Petrobrás, tem menos efeito nos seus resultados que 1% de variação cambial sobre a dívida.

Então qual é o motivo desta agressividade com os sindicatos e os funcionários? Vingança pelos resultados da pesquisa de ambiência? Se for este o motivo as coisas vão se agravar, pois na próxima pesquisa (jan/2018) as respostas vão ser mais contundentes pois os petroleiros estão ficando cada vez mais conscientes dos verdadeiros problemas da empresa.

O mais estranho em tudo isto é a pouca, ou nenhuma, divulgação por parte da grande mídia sobre o que ocorre na Petrobrás. Seria efeito da verba publicitária da companhia?

*Cláudio da Costa Oliveira é economista da Petrobrás aposentado

Tags petrobrás pedro parente privatização lava jato

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